A criança que eu fui

Recebi em 22/11/2017



Imagem Editora Abril

Hoje eu tive que fazer exames de laboratório. Fiquei algum tempo esperando para ser atendida; o laboratório famoso está sempre cheio de gente. Gente ansiosa pelo resultado, outros fazendo check-up e, como sempre, algumas crianças estão presentes. Eu fui preparada para gastar pelo menos duas horas no local, com colhei-tas de sangue a cada 25 minutos. Qual não foi minha surpresa a en-trada de duas crianças de uniforme, faixa de 9 e 8 anos, babá e mãe bonita e elegante.

A mãe providenciou os papéis para os exames de sangue das duas crianças, enquanto uma babá desesperada corria atrás dos dois, que gritavam feito loucos, se escondiam dentro do labora-tório, com uma plateia assustada. O mais novo era mais seguro de si, mas seguia os passos do irmão. Na frente de todos, a con-versa dos dois era mais ou menos assim:

- Se eu sentir dor, você sente dor comigo?
- Claro que sinto, mas a moça disse que não vai sentir dor ne-nhuma.
- Mas se eu sentir, você vai ter que sentir dor comigo. Quero ir embora!

E começava tudo de novo. Gritos, escondidos atrás de um painel que balançava de um lado a outro, sob o olhar da funcionária, sem saber como controlar tamanha fúria. Finalmente consegui-ram levar os dois. Os gritos eram de quem estava sendo tortura-do com uma navalha bem afiada. Coisa impressionante. Nomes feios para a mãe e para a babá, chutes e pontapés. Depois que terminaram, a mãe saiu na frente, sorrindo, como se nada do que estava se passando tivesse algo a ver com ela. Pobre babá, cuidando de meninos já bem grandinhos...

Fiquei lembrando de minha infância, pobre e sem chance de fazer birras. Lembro-me de minha mãe austera, sem nunca sorrir, que só com um olhar já decidia qual seria meu futuro pe-las próximas semanas. Tinha tanto respeito por ela que o tra-tamento “
senhora” somente veio a ser compreendido por mim muitos anos depois. Senhora é aquela pessoa que está acima de você, que sabe tudo, que manda, exige respeito e não aceita nenhuma resposta em suas decisões.

Eu adorava piqueniques, folguedos, jogar ferrinho, pescar, re-cortar figuras de revistas velhas, ler todos os livros que eu tives-se disponibilidade. Um dia comecei a adolescer e descobri o va-lor de um saltinho no sapato, o batom, o primeiro soutien... E era assim:

- Mãe, amanhã é a festa da padroeira. A senhora me deixa com-prar um...
- Não!
- ... sapatinho lindo que eu vi...
- Não!
- ... que tem um saltinho de dois centímetros. Deixa?
- Não!
- Mas mãe... Porque a senhora não deixa?
- Porque não.

E assim eu carregava minhas frustrações semanas e meses, dias longos e anos. Nem por isso eu deixava de respeitar a minha mãe. Nem as “
embrocações” na minha garganta inflamada, que eu tinha que ir na farmácia e me submeter sem reclamar e abrir a boca; nem isso era motivo de chorar ou mostrar que doía e incomodava intensamente...

Durante as férias meus pais me deixavam ir passar uns dias na roça, com a Nona e o Nono. E eu morria de saudade... Lembro-me perfeitamente quando voltei de uma dessas visitas. Minha mãe estava na igreja e eu fiquei de pé, olhando para ela como se fosse a deusa mais linda do mundo. Foi a única vez que minha mãe sorriu para mim. Eu me senti a mais feliz das meninas de sete anos do mundo!

Não quero que pensem que eu não amava minha mãe, pelo con-trário. Mas para quem foi criada passando fome e trabalhando nas casas como empregada doméstica, minha mãe até que se saiu muito bem e criou os cinco filhos, deu estudo junto com meu pai, meu amado pai...

Criar um filho é saber colocar rédeas quando necessário, é ser a maior amiga quando precisam de nós... Tantas lembranças pas-saram pela minha mente nas horas que passei no laboratório...

Sunny Landrith


 

 
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