A guerra da minha infância


            Seis de Agosto de 2005. Este dia marca os sessenta anos que relembramos, ainda entristecidos, a data do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e, três dias após, sobre Nagasaky. As imagens que relembram este fato, apesar do tempo decorrido, ainda nos causam consternação.

            A notícia do final da guerra, alcançou-me na farmácia. Tinha acompanhado o meu pai para comprar um remédio quando, de repente, ouvimos uma gritaria seguida de abraços festivos. Apesar dos meus cinco anos apenas, este episódio me marcou para sempre. Meus pais, italianos que eram, agora poderiam levar uma vida mais tranqüila. Lembro-me ainda de que fui com eles receber os Pracinhas que retornavam da nossa querida e destruída Itália. A AvenidaRio Branco transformou-se numa doce balbúrdia. Deste dia ficou gravado apenas o gesto de um Pracinha que arrancou o emblema da “Cobra Fumando” que se tornara o símbolo da Força Expedicionária Brasileira e me ofereceu. Infelizmente não sei que fim levou.

            A minha guerra, no entanto, era mais romântica. Explico. Nessa época meus pais, para sobreviverem, montaram uma pensão no Leme uma vez que, com o conflito, não podiam nem sonhar com um emprego formalEra uma construção linda com frente para a praia e fundos para a Rua Gustavo Sampaio. Tinha dois andares sendo composta por dois salões, treze quartos,  três banheiros, lavanderia e um grande quintal que a circundava por completo. Neste quintal havia amendoeiras, coqueiros, abricoteiro, coquinhos e algodão da praia. Esta, por ser mais frondosa e ter lindas flores amarelas, com o seu núcleo vinho, era a minha preferida. Mas suas flores eram fugazes, duravam apenas um ou dois dias e caiam. Na primavera o quintal ficava atapetado de amarelo e eu passeava por cima delas sentindo, triste, seus últimos suspiros... Eu não me lembro bem, mas minha irmã conta que por ocasião da guerra, nos black-out, o luar desenhava a imagem rendilhada da casa no chão do nosso jardim, este, sempre envolvido por sonhos e inquietações.

            Uma das personagens marcantes da época foi Mademoiselle Blanche. Tinha 70 anos, era francesa, morou conosco de 1944 a 1947, ano este que retornou a Paris. Recebia revistas francesas sobre a guerra que encantavam a mim e à garotada. Com vassouras imitando fuzis e latas de biscoitos vazias com a função de tambores, ficávamos marchando em volta da casa, sob a sua liderança, cantando a Marselhesa. Respirava-se a guerra. Quando ia ao banheiro, o vaso sanitário era a cabine do meu avião de combate; o rodo firme aos pés servia de manche e metralhadora. Ali travava as mais heróicas batalhas contra os alemães. Os italianos, pela minha origem, eram poupados. Os sentimentos de pátria, amor e família eram fundamentais. Pelo menos, para mim, os heróis tinham sempre que morrer para serem verdadeiramente heróis. As batalhas terminavam quase sempre comigo sendo atingido e, enquanto mergulhava em chamas para o mar, pelo rádio enviava mensagens de despedida para meus pais, meus companheiros e para as meninas que eu idealizava minhas namoradas. Quando alguém apressado batia à porta, o banheiro era coletivo, eu conseguia sair do combate vivo...

           
E assim, num estalar de dedos, eis-me aqui a relembrar destes fatos. Várias guerras se passaram e outras passarão sem que a humanidade compreenda o real sentido da vida. A afirmativa do Príncipe, no filme O Leopardo - “As coisas precisam mudar para continuarem as mesmas” - explica de forma irônica a grande incoerência da vida.

            Seria tão bom se os conflitos ficassem restritos às minhas ilusões de criança. Os únicos atingidos seriam os que esperavam, aflitosque eu desocupasse. o banheiro. Com certeza seria uma utópica luta sem mortos, mas com enorme orgulho do dever cumprido. Poderia até gritar, na minha inocência: - A cobra vai fumar!

Domingos Alicata
Rio de Janeiro - RJ - 06/08/2005




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