A mulher inolvidável
Poetisa Ana F. Trindade (Portugal)


Era uma mulher belíssima. Alta, para a sua faixa etária e muito elegante. Magra, cabelo em cachos de avelã. A cor dos olhos nunca era igual. Ia de um verde intenso, passando pelo cinzento, até um verde morno salpicado de bolinhas, também cor de avelã. No entanto, o seu olhar era sempre igual. Directo, penetrante, limpo...por vezes algo irónico e até irritante. Era uma pessoa muito prática e detestava a falta de iniciativa.

Vestia-se com alguma vaidade. Não para mostrar a qualidade da roupa, mas a qualidade de quem a usava. O seu andar era firme, por vezes altivo, mas sempre mostrando a sua "Força"...que era mais ou menos aparente...nunca mostrava a sua fragilidade, nun-ca!

Onde entrava, dava-se por ela, ainda que não fizesse nada para is-so.

Na família, era conhecida por "xerifa", o que lhe dava um gozo enorme. Ela gostava que a vissem assim ... sempre forte, para es-conder que era uma mulher com alguma fragilidade.

Também se sentia mais "ela", como mulher feliz, quando cuidava do jardim e dos animais...tanto as plantas quanto os animais ti-nham de estar bem, como ela queria. Pragas? Nem pensar...as flo-res tinham de lhe sorrir. Animais doentes? Nem pensar...a sua ap-tidão para tratar de qualquer maleita ou ferida era bem conhecida por eles (plantas e animais e pessoas)

No entanto, se não fosse aquela revolta que a consumia mas que a fazia uma mulher inolvidável, teria sido das pessoas mais alegres que se podiam conhecer. Tinha um sentido de humor apuradíssi-mo e inteligente, como ela era...de uma inteligência que queria discreta, mas a qual não conseguia esconder.

Creio que, quase ninguém, dava pela sua tristeza...já da revolta, a ninguém passava despercebida. O marido morreu cedo e ela ficou ainda mais "forte" por ela e pela filha que achava demasiado ingé-nua ... para o exterior, porque interiormente, sentia-se a tristeza e a revolta, que até se podia chamar de raiva - eu chamava...

Nunca a vi parada, naquele torpor que nos faz repousar...mesmo sentada ou deitada, nunca descansava, disso apercebia-me. Irrita-vam-lhe as pessoas mais "paradas" (moles, como lhes chamava).

Tinha a severidade e a bondade na mesma proporção o que, às ve-zes, confundia as pessoas.

Algo prepotente, mas por dentro ali estava uma pessoa disposta a abraçar o coração de quase toda a gente (era muito exigente com todos, começando por ela própria e na escolha de quem gosta-va) ... pouca gente dava por isso...pelo abraço "interior" que enviava...

Era uma mulher belíssima, inolvidável. Era a minha Mãe. Saudades minha querida Mãe.

Beijinhos e Feliz dia da Mãe

Sei que a Lua não é minha, mas pode morar em mim ... Sou Ana

Ana F. Trindade
 




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