Meu recorde mundial do salto triplo

Recebi em 10/05/2016


       Pena não ter sido filmado, homologado ou constar do Livro Guinness.

       Chovia a cântaros naquela tarde cinzenta e eu, por força de um compromisso comercial inadiável, seguia bravamente entre raios e trovões rumo ao meu destino sob um guarda-chuva incapaz de abrigar-me da cintura para baixo; vez por outra uma lufada mais forte tentava arrancá-lo de minha mão.

       Rios d’água escorriam junto ao meio-fio em busca desesperada dos bueiros que os engoliam com sofreguidão incontida e insaciá-vel. Tinha que atravessar a rua e comecei a procurar um local me-nos encharcado e que não me obrigasse a ensopar meus sapatos, mais do que já estavam.

       Aqui! Não, aqui não pode! Ali! Não, ali está inviável! Mais adi-ante! Sim, mais adiante vai dar. Pulo ou não pulo o riacho?

       Foi em meio àquela dúvida cruel que aconteceu o inusitado! Um sádico transformador dissimuladamente instalado no alto do poste em que estava eu bem embaixo, resolveu EXPLODIR! Aquele estrondoso “bum” deu-me tamanho susto que atravessei a rua to-cando com os pés apenas duas vezes na rua e estatelando-me sobre as pessoas que estavam abrigadas sob a marquise na calçada opos-ta.

       Arfante e pálido fui ironicamente aplaudido pelos que me “re-cepcionaram” e comentaram meu feito olímpico, de fazer inveja a qualquer canguru australiano. Ainda meio apatetado, entre um sor-riso amarelo, agradeci.

       “Você acabou de bater o recorde mundial de salto triplo, sem tomar distância para impulsão e sem uma caixa de areia para amaciar sua aterrissagem. Parabéns!”, disse-me um dos gozadores que riam a bandeiras despregadas do susto que levei. Some-se a isso o fato de, ao invés de um calção, estava eu trajando um terno molhado e usando uma incômoda gravata.

       Na época este que vos escreve deveria ter uns vinte e três anos. Hoje já passei dos oitenta, mas ainda lembro com orgulho desse meu feito retumbante!

Nota: Aos mais detalhistas e curiosos, esclareço que não sei onde foi parar meu guarda-chuva!

Ary Franco



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