Concurso Literário da Fundação Copel - Livro Encontro II - Ano de 1980



Poesia classificada em 1º lugar - Ano 1980


AMOR - MAIOR
Aparecido Izabel Massi

PRIMEIRA PARTE

   Em mim,
   como na praia,
   somente o silêncio do mar!
  
   com os olhos dissolvidos
   no mistério,
   à procura de conforto
   apenas as estrelas,
   as águas,
   o vento,
   a noite,
   velavam por um quase morto!
  
   Sopraram forte os favoráveis,
   dormiam no porto os mastros todos
   entre nuvens geladas,
   leve,
   oculta!
  
   A noite é cúmplice
   em silêncio
   e sombra,
   onde resido
   e morro,
   pouco a pouco,
   levando o barco
   e a noite sobre os ombros!
  
   Dei um grito morto,
   não protesto,
   dei!
   Para que as mãos retornem às plumas
   apesar deste vento,
   desta noite,
   a incerteza,
   inconseqüente incerta contradição
   de gestos e palavras,
   frustrações,
   comportamentos.
  
   Ah! Grito morto...
   Só a noite,
   o medo,
   o silêncio,
   a brisa forte...
   entenderam?
  
   Ah! Grito morto
   para o mistério,
   para o mar,
   sentado na pedra,
   só
   com o amor-maior,
   em pensamento
   para o mar,
   para o amor!

 SEGUNDA PARTE
   Havia,
   e era sabido,
   entre os anseios,
   a busca do amor que era o mistério
   repousado na distância!
  
   Mistério que se fez amor,
   não lhe pedia a essência,
   nem a forma,
   mas o ato,
   o amor
   do meu jeito!
  
   Parte-se e é tudo,
   não, não!
   Não diga mais nada
   senão que é noite,
   e a noite é cúmplice.
  
   Quero impedir-te,
   sim, quero,
   mas não posso,
   nunca!
  
   Me calo e espero,
   nesta doida ânsia
   de quem mais quer,
   mais deseja,
   amor-maior,
   não vês?
  
   Será?
  
   Sonho-te,
   fúria de sonhos!
   Chamo-te,
   como quem naufraga!
   Quero-te
   transfigurada,
   poeira de aurora!
   Quero-te,
   por amar-te no espaço!
   Quero-te,
   gaivota branca e ferida.
   Sou teu sangue no ar
   manchando tua pureza.
   Quero-te
   amor-maior,
   quero-te livre
   de outros amados teus,
   livre do triste,
   das garras do desaponto!
   Quero-te
   como menino ansiando
   o colo da mãe!
  
   Amor-maior,
   QUERO-TE!
   Sou um mendigo em agonia
   em busca de seu derradeiro
   carinho!
  
   És a procurada,
   a pura,
   a meiga,
   a santa,
   a simples,
   a predileta,
   a escolhida,
   a MARIA!
  
   És o amor-maior,
   mas,
   calada,
   humilde,
   Será?
   És o complemento,
   o motivo,
   a esperança,
   a fé que nunca existiu,
   o tudo que me sobrou,
   os dias lentos,
   de noites sem sono
   de tardes e de manhãs vazias.
  
   És inocente, amor-maior,
   eu sei!
   Só existe um culpado,
   também sei!
   Mas que importa!
   Se o coração,
   a saudade
   e a solidão
   têm-me por companheiro
   muito mais que a razão!
  
   Ridículo, meus companheiros,
   ridículo!
   Por que cantam meu canto
   se só eu levo a sério?
   Ridículo,
   porque não havendo motivo
   para calar-me,
   contenho-me!
   Ridículo,
   Por que cantam meu desespero?
   Por que não vão por partes?
  
   Ridículo, meus companheiros,
   ridículo!
   Talvez por tudo,
   mas creio que sobretudo
   por serdes meus companheiros!
  
   Mas por que persistem?
   Que tanto fazem?
  
   Sabem que me é impossível
   te amar nesta noite,
   amor-maior!
  
   Quisera te amar,
   como se deve olhar
   uma estrela
   e o luar,
   com pureza e humildade!
  
   Quisera te amar,
   amor-maior,
   mas estou só,
   triste,
   profundamente triste,
   como a lua,
   a noite,
   o vento,
   a brisa
   sobre o mar!
  
   Já nada espero!
  
   Minha esperança
   é esta entrega
   sem condições,
   de te querer!
  
   Já nada espero
   nada quero!
  
   Se assim quisera tua vontade
   que me perdesse
   eternamente,
   que eu seja teu
   uma hora ao menos
   do teu eterno!
  
   Saiba,
   amor-maior,
   que perdido
   amava o teu querer.
  
TERCEIRA PARTE
   Amados lábios
   que meus lábios nunca beijaram!
  
   Amados dias,
   poucos
   e relembrados!
  
   Amados olhos
   onde a luz
   o amor buscara.
   Um grande espaço
   em céus suspensos
   nos separa,
   amor-maior!
  
   Direi à lágrima
   que aos meus olhos aflora,
   pobre,
   sentida,
   esperança tímida
   de um coração indefeso,
    -  "Sustenta-me em meu desespero,
       ajuda-me a viver!
       É água e sal,
       quando rebentas,
       manchas-me a ferida,
       mas,
       curas-me a dor,
       alivias-me a alma!"
  
   Pobre lágrima incontida,
   pobre lágrima triste,
   mais triste que a chuva,
   mais triste do que o céu quando escurece,
   mais triste que o vento,
   muito mais
   mais triste do que o toque de silêncio.
  
   Muito mais triste
   a solidão que resiste
   em deixar
   meu coração.
  
   As rosas...
   mesmo as rosas
   tombarão!
  
   As rosas...
   as mechas,
   foram rosas...
  
   Já não são!
  
   As abelhas passarão
   à procura de outras
   rosas!
  
   Mundo calmo,
   mar tão calmo!
  
   Calma no homem!
   aparente,
   tristemente levando o barco
   contra corrente...
  
   Até quando?
  
   Frio dentro!
   frio fora!
  
   Frio em tudo!
   Olhos gelados de frio!
   Gelo no homem,
   no mundo,
   na rocha,
   na noite,
   na gente!
  
   Silêncio,
   só silêncio,
   tudo mais,
   vazio!
  
   Teu corpo sorridente
   cada vez mais longe,
   mais longe
   que nunca!
  
   Teu riso distante,
   mansamente triste,
   se desfaz em nuvem,
   em brisa,
   em mar,
   mar nos olhos,
   mar nas horas,
   mar deitado num abismo,
   no mistério,
   no amor,
   na vida!
  
   Amor-maior?...
  
   Quem sabe...
   Será...
   Talvez...
  
   MAIOR!!!
  
   É MESMO?...
  
   Sumo do tempo
   Sem rumo.
   A consciência.
   Névoa densa.
   A velhice.
   Rocha a prumo.
   Vista curta.
   Baço horizonte.
   A decadência.
   Tão perto?...
  
   AMOR-MAIOR!
  
   Pôr-do-sol!...
  
   Aurora...
  
   MAIOR?
  
   É...
  
   Formidável!

Formatação de Carlos Roberto Lemberg
 
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