Textos de Umbanda
 

Especial - Origem da Umbanda

 


Na foto, Zélio de Moraes ao centro da mesa,
em meados do século passado.

Origem da Umbanda - Parte I
13 novembro, 2013
Por: Umbanda Eu Curto - categoria História, Umbanda

O mês de novembro é festivo para a Umbanda, em especial o dia 15.

Foi neste dia, há 105 anos, que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pri-meiro Guia de Umbanda se manifestou através de seu fundador, Zélio Fernandino de Moraes.

Abaixo, publicamos uma série histórica que trata deste momento e seus desdobramentos.

Zélio Fernandino de Moraes: fundador e mestre

Em novembro de 1908, uma família tradicional de Neves, Niterói (RJ) foi surpreendida por uma ocorrência que tomou aspectos sobrenatu-rais: o jovem Zélio Fernandino de Moraes, com uma estranha paralisia que os médicos não conseguiam curar, certo dia ergueu-se do leito e declarou: “Amanhã estarei curado!”.

No dia seguinte, levantou-se normalmente e começou a andar como se nada tivesse acontecido.

Tinha então 17 anos de idade e preparava-se para ingressar na carrei-ra militar na Marinha.

A medicina tradicional não soube explicar o que acontecera.

Intrigado, um amigo da família sugeriu uma visita à Federação Espíri-ta de Niterói.

No dia 15 de novembro, o jovem Zélio foi convidado a participar da sessão, tomando um lugar à mesa.

Tomado por uma força estranha e superior à sua vontade, o jovem le-vantou-se, dizendo: “Aqui está faltando uma flor!”.

Em seguida, saiu da sala indo ao jardim, voltando logo após com uma flor, que depositou no centro da mesa.

Restabelecidos os trabalhos, manifestaram-se nos médiuns kardecis-tas espíritos que se diziam pretos, escravos e índios.

Foram convidados a se retirarem, advertidos de seu “estado de atraso espiritual”.

Novamente uma força estranha dominou o jovem Zélio e ele falou, sem saber o que dizia.

Ouvia apenas a sua própria voz perguntar o motivo que levava os diri-gentes dos trabalhos a não aceitarem a comunicação daqueles espíri-tos e do por que em serem considerados atrasados apenas por encar-nações passadas que revelavam.

Seguiu-se um diálogo acalorado e os responsáveis pela sessão procu-ravam doutrinar e afastar o espírito desconhecido, que desenvolvia uma argumentação segura.

Um médium vidente perguntou: “Por que o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados, são claramen-te atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome irmão?”

E o espírito desconhecido falou: “Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã ( 16 de novembro ) estarei na casa de meu aparelho [de Zélio, o médium ], para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim não haverá caminhos fechados.”

O vidente retrucou: Julga o irmão que alguém irá assistir a seu cul-to?”, perguntou com ironia. E o espírito já identificado disse: “Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei.

No dia seguinte, na casa da família Moraes, na Rua Floriano Peixoto, número 30, ao se aproximar à hora marcada, 20h, lá já estavam reu-nidos os membros da Federação Espírita para comprovarem a veraci-dade do que fora declarado na véspera; estavam os parentes mais próximos, amigos, vizinhos e, do lado de fora, uma multidão de desconhecidos.

Às 20h, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Declarou que naquele momento se iniciava um novo culto, em que os espíritos de velhos africanos que haviam servido como escravos e que, desencarnados, assim como os índios nativos de nossa terra, po-deriam trabalhar em benefício de seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social.

A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a caracte-rística principal deste culto, que teria por base o Evangelho de Jesus.

Origem da Umbanda - Parte II
14 novembro, 2013
Por: Umbanda Eu Curto - categoria História, Umbanda

O Caboclo das Sete Encruzilhadas, então, estabeleceu as normas em que se processaria o culto.

Sessões, assim seriam chamados os períodos de trabalho espiritual, diárias, das 20h às 22h; os participantes estariam uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito.

Deu, também, o nome do Movimento religioso que se iniciava: UM-BANDA – Manifestação do Espírito para a caridade .

A casa de trabalhos espirituais que ora se fundava recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolheu o filho nos braços, também seriam acolhidos como filhos todos os que neces-sitassem de ajuda ou de conforto.

Ditadas as bases do culto, após responder em latim e alemão às per-guntas dos sacerdotes ali presentes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou à parte prática dos trabalhos, curando enfermos.

Antes do término da sessão, manifestou-se um Preto Velho, Pai Antô-nio, que vinha completar as curas.

No dia seguinte, verdadeira romaria formou-se na Rua Floriano Peixo-to.

Enfermos, cegos, entre outros vinham em busca de cura e ali a en-contravam, em nome de Jesus.

Médiuns, cuja manifestação mediúnica fora considerada loucura, dei-xaram os sanatórios e deram provas de suas qualidades excepcionais.

A partir daí, o Caboclo das Sete Encruzilhadas começou a trabalhar incessantemente para o esclarecimento, difusão e sedimentação da religião de Umbanda.

Além de Pai Antônio, tinha como auxiliar o Caboclo Orixá Malé, enti-dade com grande experiência no desmanche de trabalhos de baixa magia.

Em 1918, o Caboclo das Sete Encruzilhadas recebeu ordens do Astral Superior para fundar sete tendas para a propagação da Umbanda.

As agremiações ganharam os seguintes nomes: Tenda Espírita Nossa Se-nhora da Guia; Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição; Tenda Espírita Santa Bárbara; Tenda Espírita São Pedro; Tenda Espírita Oxalá, Tenda Espírita São Jorge; e Tenda Espírita São Jerônimo.

Embora não seguindo a carreira militar para a qual se preparava, pois sua missão mediúnica não o permitiu,
Zélio Fernandino de Moraes nunca fez da religião sua profissão.

Trabalhava para o sustento de sua família e diversas vezes contribuiu financeiramente para manter os Templos que o Caboclo das Sete En-cruzilhadas fundou.

A respeito do uso do termo espírita e de nomes de santos católicos nas Tendas fundadas, o mesmo teve como causa o fato de naquela época não se poder registrar o nome Umbanda, e quanto aos nomes de santos, era uma maneira de estabelecer um ponto de referência para fiéis da religião católica que procuravam os préstimos da Um-banda.

O ritual estabelecido pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas era bem simples, com cânticos baixos e harmoniosos, vestimenta branca, proi-bição de sacrifícios de animais.

Dispensou os atabaques e as palmas.

Capacetes, espadas, cocares, vestimentas de cor, rendas e lamês não seriam aceitos.

As guias usadas são apenas as que determinam a entidade que se mani-festa.

Os banhos de ervas, os amacis, a concentração nos ambientes vibra-tórios da natureza, a par do ensinamento doutrinário, na base do Evangelho, constituiriam os principais elementos de preparação do médium.

Após 55 anos de atividades à frente da Tenda Nossa Senhora da Pieda-de (1º templo de Umbanda), Zélio entregou a direção dos trabalhos as suas filhas Zélia e Zilméa, continuando, ao lado de sua esposa Isabel, médium do Caboclo Roxo, a trabalhar na Cabana de Pai Antônio, em Boca do Mato, distrito de Cachoeiras de Macacu (RJ), dedicando a maior parte das horas de seu dia ao atendimento de portadores de enfermidades psíquicas e de todos os que o procura-vam.

Em 1971, a senhora Lilia Ribeiro, diretora da Tenda de Umbanda Luz, Esperança, Fraternidade – TULEF, no Rio de Janeiro, gravou uma men-sagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas e que bem espelha a humildade e o alto grau de evolução desta entidade de muita luz.  Ei-la:

A Umbanda tem progredido e vai progredir.

É preciso haver sinceridade, honestidade e eu previno sempre aos companheiros de muitos anos: a vil moeda vai prejudicar a Umbanda; médiuns que irão se vender e que serão, mais tarde, expulsos, como Jesus expulsou os vendilhões do Templo.

O perigo do médium homem é a consulente mulher; do médium mu-lher é o consulente homem.

É preciso estar sempre de prevenção, porque os próprios obsessores que procuram atacar as nossas casas fazem com que toque alguma coisa no coração da mulher que fala ao pai de terreiro, como no cora-ção do homem que fala à mãe de terreiro.

É preciso haver muita moral para que a Umbanda progrida, seja forte e coesa.

Umbanda é humildade, amor e caridade – esta a nossa bandeira.

Neste momento, meus irmãos, me rodeiam diversos espíritos que tra-balham na Umbanda do Brasil: Caboclos de Oxossi, de Ogum, de Xangô.

Eu, porém, sou da falange de Oxossi, meu pai, e não vim por acaso: trouxe uma ordem, uma missão.

Meus irmãos: sejam humildes, tenham amor no coração, amor de irmão para irmão, porque vossas mediunidades ficarão mais puras, servindo aos espíritos superiores que venham a baixar entre vós; é preciso que os aparelhos estejam sempre limpos, os instrumentos afinados com as virtudes que Jesus pregou aqui na Terra, para que tenhamos boas co-municações e proteção para aqueles que vêm em busca de socorro nas casas de Umbanda.

Meus irmãos: meu aparelho já está velho, com 80 anos a fazer, mas co-meçou antes dos 18.

Posso dizer que o ajudei a casar, para que não estivesse a dar cabe-çadas, para que fosse um médium aproveitável e que, pela sua medi-unidade, eu pudesse implantar a nossa Umbanda.

A maior parte dos que trabalham na Umbanda, se não passaram por es-ta Tenda, passaram pelas que saíram desta Casa.

Tenho uma coisa a vos pedir: se Jesus veio ao planeta Terra na humil-dade de uma manjedoura, não foi por acaso.

Assim o Pai determinou.

Podia ter procurado a casa de um potentado da época, mas foi esco-lher aquela que havia de ser sua mãe, este espírito que viria traçar à humanidade os passos para obter paz, saúde e felicidade.

Que o nascimento de Jesus, a humildade que Ele baixou a Terra, sir-vam de exemplos, iluminando os vossos espíritos, tirando os escuros de maldade por pensamento ou práticas; que Deus perdoe as malda-des que possam ter sido pensadas, para que a paz possa reinar em vossos corações e nos vossos lares.

Fechai os olhos para a casa do vizinho; fechai a boca para não mur-murar contra quem quer que seja; não julgueis para não serdes julga-dos; acreditai em Deus e a paz entrará em vosso lar.

É dos Evangelhos.

Eu, meus irmãos, como o menor espírito que baixou à Terra, mas amigo de todos, numa concentração perfeita dos companheiros que me rodeiam neste momento, peço que eles sintam a necessidade de cada um de vós e que, ao sairdes deste Templo de caridade, encon-treis os caminhos abertos, vossos enfermos melhorados e curados, e a saúde para sempre em vossa matéria.

Com um voto de paz, saúde e felicidade, com humildade, amor e ca-ridade, sou e sempre serei o humilde Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Zélio Fernandino de Moraes dedicou 66 anos de sua vida à Umbanda, tendo retornado ao plano espiritual em 03 de outubro de 1975, com a certeza de missão cumprida.

Seu trabalho e as diretrizes traçadas pelo Caboclo das Sete Encruzi-lhadas continuam em ação através de suas filhas Zélia e Zilméa de Moraes , que têm em seus corações um grande amor pela Umbanda, arvore frondosa que está sempre a dar frutos a quem souber e mere-cer colhê-los.

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