Último soneto


Quero o manto da noite a velar meu cabelo,
do luar, a centelha, mostrando-me o norte.
Às estrelas suplico, o mais profundo apelo
ao Senhor do existir: que me conceda a morte.

Quero ondas de brisa a ninar-me, em desvelo,
quando o corpo, exaurido, perder o seu porte;
quero o abraço do fogo ao cruel pesadelo,
de uma vida sofrida, madrasta, sem sorte.

Que ninguém me lamente, sequer mandem flores
- não suporto o fingir, travestido de cores - ...
Minhas cinzas? Libertas ao vento, mais nada.

Nada mais... Quero, ainda a benesse do olvido,
não lembrar deste mundo, infiel, desabrido,
onde o amor tem, na dor, sua rima adequada.

Patrícia Neme



 

 
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