Rabino Henry Sobel

Patricia Neme

 
Tenho estado cansada, muito cansada.
A vida de uma mãe e pai de três filhos
não é exatamente um spa de sossego.
A cabeça vive em ebulição,
fervura contínua;
o coração mais parece um cavalo enlouquecido,
ao ser solto em pasto de primavera.
 
Criei meus filhos com os cuidados de mãe-passarinho.
E desde que tive que empurrá-los ninho afora –
dizem que é assim que aprendem a voar,
embora eu sempre pense que podia ser diferente...
 
Meus olhos passam as noites arregalados,
mais redondinhos
que os da coruja,
mais observantes que a lua cheia.
Porque tenho medo;
das balas perdidas,
dos traficantes,
dos assaltantes,
dos revoltados,
dos skin heads,
dos mal amados,
dos políticos,
de alguns policiais.

E no viver dessa perene agonia,
meus filhos riem de mim
quando ponho os tênis deles para secar no forno
e o pudim para cozinhar no peitoril da janela,
onde bate um solzinho gostoso...
Sou estressada, quando brigo
e brigo porque não encontro minhas sapatilhas,
e elas estão na geladeira,
arrumadinhas encima de um pano de prato.
É, eu faço coisas assim.
E jogo roupa suja no cesto de lixo
(tinha que ser no de roupa suja),
tudo o que se move eu chamo de liquidificador...
Louca?
Não!
Esclerosada?
Ainda não!
Absurdamente distraída,
tanto, que certa vez entrei num trem
para o norte da Alemanha e acordei na Itália...
E ainda tentei explicar aos italianos
que estávamos na Alemanha;
aquilo foi muito engraçado!

Fico pensando que,
mais em alguns anos,
quando talvez o alzheimer
ou a esclerose me visitem,
eu toque fogo no mundo... rsrsrs
Sim, porque com toda essa minha distração,
com essa minha cabeça
que vive contando sílabas poéticas....
A coisa vai ficar preta!

Bom,
mas o que venho dizendo até agora,
é que, dependendo das nossas responsabilidades –
e por que não da nossa criatividade
e capacidade de sonhar,
estamos sujeitos a alguns destemperos.
Ou até mesmo porque algumas enfermidades
vão se achegando sorrateiramente,
e só as percebemos em estágio mais avançado.

Hoje,
além do meu cansaço normal, estou triste.
Porque um homem digno,
íntegro, que "peitou" a ditadura militar –
e tem que ser muito macho pra isso,
e vive dedicado a unir
cristãos,
judeus
e muçulmanos,
porque seu Deus é um Deus de igualdade,
de amor universal,
está sendo execrado pela imprensa porque roubou gravatas.
Que houve algo
entre ele e as gravatas,
tudo indica que houve.
Mas alardear que Henry Sobel é um ladrão de gravatas...
Misericórdia!
Um homem daquela responsabilidade,
daquele gabarito...
Tão correto,
que já se retirou da Presidência da Congregação Israelita.
Seu rosto denota o sofrimento moral que atravessa,
dá conta da perplexidade ante essa situação.
E a imprensa noticia...

Essa mesma imprensa
que engole toda a pouca vergonha de Brasília.
A mesma imprensa que fala e cala,
morde
e sopra.
A mesma imprensa
que deveria gritar tanto, tanto...
que os marginais ocupantes de cargos eletivos
fossem defenestrados do congresso nacional.
Porque é lá que estão os ladrões,
lá que estão os que destroem o país,
os que roubam,
assassinam
e traficam;
isso mesmo,
eu disse TRAFICAM DROGAS.
Mas como isso é assunto conhecido....
Vamos falar do ladrão de gravatas!

Sr. Rabino Sobel,
aceite desta não judia
(apenas ashkenazi,
por minha avó Lemberg
e libanesa pelo Neme do meu avô),
absolutamente cristã,
o abraço fraterno.
Já aprendi que, na vida,
nem tudo o que parece, é.
E nem tudo o que é, parece:
e aqui mora o perigo.

Shalom!
Que o Senhor Deus o abençoe e guarde.
Patrícia
02/04/2007


Com carinho,
rivkahcohen