Naufrágio


Onde a serenidade para agradecer-te, Senhor,
o pão dos meus dias,
se anjos morenos morrem de fome nos braços da África?

Se tenros meninos,
premidos pela miséria,
traficam a morte nas favelas do Rio,
nos guetos de São Paulo?

Se em todo o planeta,
pequenas vestais,
olhares plenos de alvorada,
entregam seus corpos ao prazer dos vampiros da noite...
Por um prato de comida?!

Como sobreviver à dor
de inocentes degolados,
dos corpos explodidos,
dos pais desempregados?

Como adentrar a mirada dos cães abandonados,
olhos súplices, a murmurar: estou aqui!,
sem poder aninhá-los, todos,
nos recantos do meu peito?

Como agradecer-Te a vida...
(O que é tudo isso?)

Como suportar essa angústia,
e eternamente correr atrás da esperança,
sempre escondida em um novo sol?

Estou no mundo, o mundo está em mim...
Tudo está em mim.
Um tudo doloroso,
que põe minha alma amassadinha,
sem rumo...
Pois é tão pouco o que posso fazer,
ante essa imensidão de horror.

Se criados à Tua imagem e semelhança,
quem És, na verdade,
para o humano ser assim tão vil?

Agradecer-te...
O que?
A barbárie, cada vez mais refinada?
Balas perdidas?
Índios cremados em vida?

Por que não findas todo esse sofrimento,
Deus Todo-Poderoso,
razão da minha devoção?

Basta, Senhor, por favor!
Pois é muita a dor. É tanta...
E eu naufrago nela.

Patrícia Neme


 

 
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