Bom apetite


Hoje,
sentar-nos-emos ao redor da mesa,
para o almoço de domingo.
Sobre a alvura do linho, enfeitado de renda,
repousarão os pratos que me lembram as Gerais
(não são azuis porta e janelas dos casarios antigos,
que se encascatam ladeira abaixo?
Por falar nisso, jamais esqueçam:

Quando eu morrer, meu coração quero enterrado
no sacro chão das verdes matas das Gerais...
- e que a vida termine o soneto!).
Talheres de prata
(foram trinta os talentos que compraram
a vergonha do homem!), comme il faut,
para que nossos lábios sejam tocados
com requinte.
Copos de fino cristal, cantando translucidamente
a veracidade dos brindes
(pois brindaremos ontens, hojes e amanhãs),
dos quais sorveremos a saudade, gota a gota,
do que já fomos,
do que não somos?,
do que poderemos vir a ser...
Ah,
também um delicado arranjo de girassóis,
embora sempre me digam que uma coisa
não rima com a outra:
delicado e girassóis.
Mas eu sou aquela cara redonda, com
ares de estabanada, em
perpétua busca pelo rei deste universo...
(os outros universos serão tecidos de
fios de esperança, suaves malhas de sonho?)
Se alguém conseguisse enxergar minha alma,
veria violetas pequeninas... frágeis...
assustadas...

Hoje,
vestidos com roupas domingueiras,
sentar-nos-emos ao redor da mesa,
como antigamente.

E saborearemos a família.

Patrícia Neme


 

 
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